Um ato de bondade
Vivi uma história insólita umas noites atrás.
Depois de um dia avassalador de trabalho, cheguei na portaria de meu prédio e vi uma cena que me causou um certo desconforto.
Havia chovido e a noite de inverno se acentuava com uma insistente brisa fria. Na marquise de uma loja em frente ao meu edifício, um morador de rua tentava se proteger do frio, enfiando-se dentro de uma caixa de papelão destas usadas para bicicletas. A caixa era pequena, acho que de bicicleta aro 16; ainda assim, o sujeito tentava se acomodar dentro dela, tentando se proteger até os ombros.
Era um esforço inútil.
Passei pelo porteiro que me cumprimentou falando algo que respondi mecanicamente, o pensamento ainda lá na calçada.
De súbito, me flagrei pensando como que a gente, tendo quase tudo, costuma reclamar da vida enquanto outros vivem em condições desumanas.
Entrei no meu apartamento e continuei pensativo. Uma tristeza de momento foi se chegando.
Precisava fazer alguma coisa.
Fui até o quarto e encontrei no fundo do armário um antigo casaco de moletom ainda em bom estado e que eu não usava fazia uns anos.
A chuva voltou a cair forte e decidi esperar até que ela estiasse.
Quarentas minutos depois, peguei o moletom e um guarda-chuva e desci até portaria. Descobri que o morador de rua havia ido embora. Na marquise ficara apenas a caixa de papelão empapada pela chuva.
"Putz!", pensei, "O cara perdeu a caixa ainda ficou sem o moletom. Tudo porquê eu não podia descer naquela hora e me molhar".
Para aliviar a culpa, resolvi dar uma volta pelo quarteirão na tentativa de encontrar o sujeito.
Nada; nem sinal.
Estava quase desistindo quando, num beco próximo, vi outro morador de rua tentando proteger um carrinho cheio de tralhas com uma "colcha" de retalhos de sacolas de supermercado. Olhei para o moletom na minha mão e achei que eu estava tendo uma segunda chance.
Resolvi me aproximar.
— Boa noite, senhor.
O homem não me respondeu.
— O senhor quer este agasalho?
O homem me olhou de cima em baixo sem dizer nada.
Insisti, repetindo a pergunta e estendendo o moletom em sua direção.
O homem finalmente falou:
— O senhor não quer que eu chupe o seu pau, quer?
— Não!— eu respondi atônito.
— Nem vai querer chupar o meu, vai?
— Não, absolutamente.
Ele estendeu a mão em direção ao casaco e quando ia pegá-lo, parou e perguntou:
— O senhor não teria um cobertor?
Não acreditei que aquilo estava acontecendo.
— Como?
— Um cobertor seria bem melhor.
Tentei manter a calma.
— Não, senhor. O que eu tenho é só este casaco.
Finalmente, ele pegou o moletom. Analisou-o de frente e verso.
— Tá meio velho, né?
— Ahn?!
Levou o casaco até o rosto e o cheirou.
— Mas pelo menos tá limpinho. — o homem abriu um semi-sorriso de lacunas entre vários dentes podres e escurecidos.
Comecei a me irritar:
— Afinal, o senhor vai querer o casaco ou não?
Neste momento, um outro homem surgiu com um guarda-chuva e um saco debaixo do braço.
— Olá, boa noite. Eu trouxe um cobertor.
O morador de rua olhou para mim e disse rindo:
— Não falei que um cobertor era melhor?
Usei todo o meu discernimento para não cobrir o mendigo de porradas. Ele prosseguiu:
— Pode levar o casaco. Eu vou ficar com o cobertor.
Puto da vida, peguei o casaco e saí andando, sem olhar para trás. Minha vontade era voltar e enfiar o moletom pela goela abaixo do mendigo.
Cheguei em casa e caí na cama em busca do sono do esquecimento.
No dia seguinte, passei na igreja do bairro e me livrei do maldito moletom.
Mas o pior não foi isso.
Agora em cada esquina que passo, eu vejo o mendigo tirando sarro da minha cara.
